sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

exercício 'Sketch' - Rita Faria/Ana Costa Ribeiro



(diálogo entre um polícia e senhora de idade que se conhecem e se encontram na rua, enquanto o polícia faz o seu giro)

- Olá, senhor guarda Miguel, tudo bem?
- …aaaaah…. Ó D. São… desculpe lá, D. São, mas a D. São não pode andar por aí assim vestida.
- Não posso? Então mas… porquê?
- Ó D. São, é que isso é uma indecência. Assim, a mostrar tudo.
- Então se eu estou de gola alta e tudo, saia até aos tornozelos, cachecol porque está frio, luvas porque as pontas dos dedos andam sempre geladas e eu sem luvas nem consigo mexer as mãozinhas nem nada, collants grossos de lã porque sem eles nem dois passos dou, enregelada de frio que fico, botas até aos joelhos, gorro para não se me congelarem as orelhas, quer dizer… a mostrar tudo, como?
- A mostrar tudo, D. São! Essa roupa toda justa! Já viu esses collants todos colados à perna? Ainda por cima, uma pessoa da sua idade. Essas luvas sexy… alongam-lhe os dedos… esse cachecol a cair levemente sobre o peito, a realçar a protuberância… é que chama a atenção, percebe, esse cachecol chama a atenção para a protuberância.
- Chama a atenção para a protuberância, como?
- Chama a atenção para a protuberância, D. São, chama! O que é que quer que eu lhe diga? Vai ter de ter paciência, D. São, mas ou vai a casa mudar o vestuário, ou vou ter de a levar para a esquadra. É que, ainda por cima, uma senhora da sua idade com essa roupa, só se for para deixar os homens loucos. É isso que a D. São quer?
- Uma senhora da minha idade? Então mas o sr. Guarda Miguel sabe tão bem que eu fiz 65 anos na semana passada… homens loucos… homens loucos, como?
- Homens loucos, D. São! Uma senhora assim, enxuta, como dizem os brasileiros, toda boa, desculpe lá a expressão mas é verdade, com idade para andar aí aos pinotes, com esses collants todos justos, essas botas altas, parece que quer ir ali fazer quilómetros no Intendente, ó D. São, olhe que francamente, nem me faça falar mais.
- Ai, sr guarda Miguel, o que é que se está a passar? Então mas… eu sou viúva, o sr guarda bem sabe, desde que morreu o meu Jorge que não olho para outro homem, agora o sr guarda põe-se a falar de protuberâncias e pinotes e que eu tenho de mudar de roupa e… sinceramente, não sei.
- É que a D. São, ultimamente, tem andado um bocado para o indecente. E depois, vejo-a sempre com cada livro debaixo do braço que vou-lhe contar… olhe que não a queria a tomar conta da minha filha, D. São.
- Livros debaixo do braço, como, sr guarda Miguel?!
- Sim, por exemplo esse que traz aí, olhe-me para essa indecência!
- Então mas se isto é um livrinho de cânticos à Virgem, pois se eu vou agora para a missa, pois se eu…
- Tá bem, tá, vai para a missa. E acha isso bem, andar por aí com livros sobre virgens? Acha isso bem? Quer dizer, é o collant justo, é a luva sexy, é a virgem, bem, só lhe digo que a estou a avisar, D. São. Mais um bocadinho e vai comigo para a esquadra.
- Mas que livros é que eu devia ter, então… não percebo…
- Ó D. São, uma senhora com ar tão fresco, tão sofisticado como a senhora e não sabe! Leituras decentes, D. São, leituras decentes. Um Marquês de Sade. Um Henry Miller. Um Milo Manara, para entrarmos na banda desenhada. Um D.H. Lawrencezito, a Lady Chatterley, por exemplo. Esse tipo de coisas.
- Ó sr guarda Miguel, mas olhes que eu isso nunca hei-de ler na vida, sr guarda Miguel, olhe que eu conheço esses ordinários todos que me está a dizer e olhe que eu nunca na vida, olhe que eu só do Marquês de Sade li a Justine e jurei para nunca mais, e depois li os 120 Dias e jurei para nunca mais, e depois li a Filosofia da Alcova e jurei para nunca mais, e depois li os Trópicos do Henry Miller e jurei para nunca mais, e depois li o Lady Chatterley e aquela ordinarice da Virgem e do Cigano, e jurei que esse DH Lawrence, meu Deus, que nojo, nunca mais, não me faça chorar, sr guarda, olhe que esses ordinarões eu nunca hei-de ler, se faz favor deixe-me ir para a missa com os meus cânticos à Virgem, sr guarda!
- Ah, ele é isso? Com que então Marquês de Sade é ordinarão? Com que então Henry Miller é ordinarão? Com que então DH Lawrence é ordinarão? Com que então andar por aí a ler coisas sobre virgens e cânticos é que é bonito?! Basta, D. São, vem comigo para a esquadra e é já, e olhe que o collant justinho, a luva sexy, o cachecol a realçar a protuberância vão ter de ir à vida, percebeu? Para a esquadra, presa por conduta indecente, e é já.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

exercício sketchs - saga 'A CENSURA'

de Luís Gaspar


Contextualização:


Este sketch é uma sátira aos recentes episódios de censura, primeiro com o Magalhães (no Carnaval de Torres Vedras) e, dias depois, com o livro Pornocracia (na Feira do Livro Usado de Braga).

Personagem principal:

Um agente policial tipicamente português: castiço, barrigudo, com um farto bigode e ar de bêbado, excessivamente zeloso e burro que nem um chaparro.

Síntese da acção:

A luta cega e persecutória deste polícia (com tiques de censor) contra a pornografia. Pela moral e pelos bons costumes.


CENA I


Vê-se um casal de amantes no escritório – já fora de horas – o patrão e a secretária, os dois já descamisados, comendo-se em posições muito acrobáticas. Os dois estão tão compenetrados na trancada fervorosa que estão a dar que nem topam a entrada em cena de um agente que os surpreende.
Polícia: – Ah ah… Catei-vos, seus pornógrafos! Tarados. – Grita ele.
Patrão: – Não senhor agente. – Responde atrapalhado enquanto ambos se compõem à pressa. – Isto não é nada do que o senhor está a pensar, nós podemos explicar. Não diga nada à minha mulher.
Polícia: – Recebemos uma queixa anónima na esquadra e como eu estava aqui nas redondezas vim inspeccionar e apanhei-vos a prevaricar.
Secretária: – É que nós fazemos teatro amador e estamos a ensaiar uma peça do famosíssimo escritor indiano chamado Vatsyayana Mallagana. Não conhece?! – Pergunta ela com um ar angelical.
Polícia: – Literatura indiana? Conheço, conheço. – Responde ele a disfarçar a ignorância. – Mas que diabo de peça é essa? Eu não estou bem a ver.
Patrão: – É uma peça baseada num livro de aforismos chamado Kama Sutra.
Polícia: – Kama Sutra? E isso é arte, é cultura?
Secretária: – É sim senhor agente, da mais pura.
Polícia: – Hum, ora bem… Se é cultura podem continuar a ensaiar.
O casal volta a despir-se à pressa e continua no forrobodó.


CENA II

Vê-se um casal de velhinhos no sofá da sala – no lar de idosos – a ver um filme com bolinha vermelha. Entre gemidos e uivos do televisor os velhinhos entreolham-se saudosos dos bons velhos tempos. Os dois entrelaçam as mãos e trocam carícias nem reparando na entrada em cena de um agente que os surpreende.
Polícia: – Ah ah… Catei-vos, seus pornógrafos! Tarados. – Berra ele.
Avozinho: – Não senhor agente. – Responde ele, ajeitando a peruca. – Isto não é nada do que o senhor está a pensar, nós podemos explicar. Não diga nada à directora do lar.
Polícia: – Recebemos uma queixa anónima na esquadra e como eu estava aqui nas redondezas vim inspeccionar e apanhei-vos a prevaricar.
Avozinha: – Nós adoramos cinema – diz ela, depois de ajeitar a dentadura – e estamos a visionar o filme Banane al Cioccolato com a ex-deputada italiana que adora animais, a famosa Ilona Staller. Não conhece? – Pergunta ela com um ar celestial.
Polícia: – Cinema italiano? Conheço, conheço. – Responde ele a disfarçar a ignorância. – Mas que diabo de filme é esse? Eu não estou bem a ver.
Avozinho: – É um filme baseado nos devaneios culinários de uma mulher chamada Cicciolina.
Polícia: – Cicciolina? E isso é arte, é cultura?
Avozinha: – É sim senhor agente, da mais pura.
Polícia: – Hum, ora bem… Se é arte podem continuar a visionar.
A velha tira a dentadura e o velho a peruca e voltam a dar as mãos e a ver o filme porno.


CENA III

Vê-se um casal de latagões gays na marmelada deitados num banco de jardim, um espaço público. Os dois abraçam-se louca e apaixonadamente nem reparando na entrada em cena de um agente que os surpreende.
Polícia: – Ah ah… Catei-vos, seus pornógrafos! Tarados. – Vocifera ele.
Activo: – Diga senhor agente. – Balbucia, endireitando-se à pressa. – Nós podemos explicar o que estamos a fazer. Não diga nada aos nossos namorados.
Polícia: – Recebemos uma queixa anónima na esquadra e como eu estava aqui nas redondezas vim inspeccionar e apanhei-vos a prevaricar.
Passivo: – Nós somos simples crentes – diz ele – e estamos a divulgar a Palavra de Nosso Senhor. Não conhece? – Pergunta ela com um ar angelical.
Polícia: – Nosso Senhor? Conheço, conheço. – Responde ele a disfarçar a ignorância. – Mas que Palavra é essa? Eu não estou bem a ver.
Activo: – É aquela que diz: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”; está na Bíblia.
Polícia: – Bíblia? E isso é arte, é cultura?
Passivo: – É sim senhor agente, da mais pura.
Polícia: – Hum, ora bem… Se é arte podem continuar a divulgar a Palavra.
Os gays abraçam-se e continuam aos chochos no banco de jardim.


CENA IV

Vê-se um miúdo deitado na cama já dentro dos lençóis, enquanto lê uma revista os cobertores estremecem de uma forma bastante suspeita e aprazível para o rapaz. Ele nem repara na entrada em cena de um polícia que o surpreende.
Polícia: – Ah ah… Catei-te, seu pornógrafo! Tarado. – Bradou ele.
Miúdo: – O quê?! – Questiona, terrivelmente assustado. – Eu posso explicar tudo senhor agente. Não diga nada aos meus pais. – Suplica o rapaz, tapando-se com a roupa da cama.
Polícia: – Recebemos uma queixa anónima na esquadra e como eu estava aqui nas redondezas vim inspeccionar e apanhei-te a prevaricar.
Miúdo: – Eu tenho o hobby da fotografia – inventa ele – e estou a aprender com os melhores fotógrafos do Mundo, pois eles trabalham para a Playboy americana. Não conhece? – Pergunta ele com ar de anjinho.
Polícia: – Fotografia americana? Conheço, conheço. – Responde ele a disfarçar a ignorância. – Mas que Playboy é essa? Eu não estou bem a ver.
Miúdo: – É aquela revista que traz muitas imagens da vida animal em estado selvagem, do Hugh Hefner. Ele até tem a Mansão da Playboy que é uma espécie de Jardim Zoológico.
Polícia: – Mansão da Playboy? E isso é arte, é cultura?
Miúdo: – É sim senhor agente, da mais pura.
Polícia: – Hum, ora bem… Se é arte podes continuar a fruir.
O miúdo abre um largo sorriso, pega novamente na revista e volta à carga.


CENA V (FINAL)

Vê-se o intelectualóide numa galeria de arte a admirar uma pintura e está tão profundamente extasiado que nem repara na entrada em cena de um agente que o surpreende.
Polícia: – Ah ah… Catei-o, seu pornógrafo! Tarado. – Ralhou ele.
Intelectualóide: – Quem? Eu? – Pergunta aparvalhado. – Eu não estava a fazer nada ilícito senhor guarda.
Polícia: – Recebemos uma queixa anónima na esquadra e como eu estava aqui nas redondezas vim inspeccionar e apanhei-o a prevaricar.
Intelectualóide: – Eu apenas admirava esta réplica do quadro pré-cubista Les Demoiselles d'Avignon – explica ele – adoro este óleo sobre tela pintado em 1907 por Pablo Picasso. Não conhece? – Pergunta ele esbaforido.
Polícia: – Les Demoiselles…? Conheço, conheço. – Afirma o agente, em tom de gozo, convicto de que está a ser ludibriado pelo intelectualóide.
Intelectualóide: – A sério, é uma obra-prima exposta em Nova Iorque, é do início do Período Negro deste genial pintor espanhol.
Polícia: – Período Negro vai ter você hoje. Aposto que me vai dizer que essa pouca-vergonha é arte, é cultura.
Intelectualóide: – É sim senhor agente, da mais pura.
Polícia: – Hum, ora bem… Isso, para mim, são cinco pérfidas prostitutas descascadas. O senhor violou todas as tradições e convenções legais. Faça o favor de se identificar e de me acompanhar à esquadra imediatamente.
O intelectualóide é arrastado como um diletante da galeria de arte pelo polícia para ser detido, enquanto esbraceja e esperneia tentando explicar-se, sem resultado. E vai de cana.

exercício em dupla: publicidade ao Doce Lima

Luís Gaspar e Vasco Sequeira


Ideia para publicidade à Cafetaria Doce Lima:


Anúncio televisivo (para passar, por exemplo, em ecrãs publicitários do Centro Comercial Oeiras Parque)

- No início, vemos a imagem fixa numa família clássica portuguesa sentada no sofá da sala – pai, mãe e filho – todos à vontade, em pijama, roupão, chinelos ou pantufas.

- Passados uns instantes, o filho aborrece-se e diz que vai para o computador e sai da sala, a imagem continua fixa no sofá da sala – ainda com o pai e a mãe lá sentados.

- Às tantas, a mãe diz ao pai que quer um café e pergunta-lhe se ele também quer. Ele responde que sim e ela levanta-se do sofá e sai do enquadramento – onde já só resta o pai.

- Momentos depois, o pai também se levanta e a imagem acompanha-o. Ele abre a porta da sala – no interior da sua casa – e vê-se dentro da cafetaria.

- Dentro do café já está a restante família: o filho no computador e a mãe atrás do balcão a tirar os cafés para o casal; todos estão vestidos casualmente como estavam há pouco – de pijama e roupão.

- No final pode ler-se o slogan: “Sinta-se em casa no Doce Lima”.

Os espiões portugueses saem do armário


crónica de Carlos Natálio


Em tempos de crise lá se vai vendo uma ou outra notícia que nos deixa mais confiantes. É com grande orgulho que vemos Portugal afirmar-se como país onde a democracia não é só verbo de encher e se pode finalmente espiolhar a vida dos outros às claras. Com dignidade. Falo, claro, da recente divulgação acidental de uma lista com a identidade dos nossos espiões pela Presidência de Conselho de Ministros. Sobre este caso, o motivo de maior regozijo é saber que os hiperserviços de segurança, através do seu hipersecretário geral, fizeram de imediato saber que tudo não passou de um lapso. Na verdade, a lista dos "nossos rapazes" não era para ser divulgada na intranet mas sim na... internet, um espaço relativamente menos aconchegado com considerável maior número de pessoas.
Para mim, é, desde logo, uma agradável surpresa constatar que o governo sabe o que é a intranet - uma espécie de internet mas mais introspectiva, mais Francisco José Viegas. Depois, porque acho que não há um português que não fique a sentir-se mais seguro ao saber que temos um hipersecretário. Ainda por cima geral. Senão quem se reuniria todos os dias com os "ultra-ministros", na sua caverna "pu" trás de São Bento, para resolver os "arqui-problemas" da nação? É trabalho sujo meus amigos, mas alguém tinha de o fazer. Agora já sabemos quem.
Ao que tudo indica a divulgação dos nossos espiões terá sido motivada por um pedido de livre trânsito que daria à nossa secreta o acesso a cantinas, recintos desportivos e espectáculos. Todos nós sabemos que a actividade de espiar é dura e ingrata. Para quem não sabe, a espionagem consiste basicamente na tarefa de viajar por todo o mundo vestindo apenas uma gabardina, um par de óculos e uma pasta, em busca de microfilmes. Tratando-se de empreendimento tão desgastante é normal que de vez em quando precisem de descomprimir e o mínimo que o Estado Português podia fazer era pagar aos seus espiões o jantarito no Chimarrão e o concerto do Demis Roussous a seguir. O que é justo, é justo.
Outras fontes adiantam que este lapso teve origem num processo para a criação de uma identidade secreta para cada espião. Ora, tudo parece fazer sentido, tudo parece bater certo, senão fosse o pequeno detalhe de se ter achado graça à criação de uma identidade alternativa.... através da divulgação massiva da verdadeira. "Ora portanto, o sr. João Fernandes, 35 anos, altura e peso tal, morador na rua tal, a partir de agora passa a chamar-se João "Esquilo Implacável". Tá bom?"
Mas entretanto o sr. João passa a ter de aturar conversas como esta à saída do prédio. "Olha, o Sr. João. Tudo bem? Vi-o na net no outro dia. Fica bem de gabardine... Não sabia que era espião. Que giro! O meu mais novo faz é atletismo. Cada um é para o que nasce. Bom, até logo, prazer em vê-lo." Já para não falar em confusões de identidades que podem levar a que num belo dia de Inverno, o sr. João Fernandes, serralheiro, 50 anos, seja baleado no crâneo com uma 16 milímetros enquanto janta pacatamente com a família e depois lhe seja revistada a panela do guisado em busca de microfilmes. Microfilmes, microfilmes... Mas porque sempre os microfilmes? Não era mais cómodo uma pen, um ipod, um DVD+R? Isto é gente que é info-excluída.
O único senão de toda esta situação é o facto da criação deste novo estatuto para os espiões portugueses ser tão burocrático. Ao que parece o simplex ainda não chegou à actividade da espionagem. É preciso fazer para cada espião uma ficha... com nome... fotografia... morada... Se por um lado facilita a avaliação dos espiões, o que está muito na moda, o tempo que se perde a preencher, a conferir, a redigir, é inacreditável. Aposto que se 007 trabalhasse em Portugal era "praí" o 707, ainda contando com as 10 senhas de tolerância. A não ser que chegasse umas horinhas antes de abrir para não dar chance aos reformados.

O homem do SIADAP

crónica de Pitonisa

Para a maioria das pessoas, a sessão foi esclarecedora. O formadorcomeçou, forçosa e esforçadamente, no seu fato escuro amachucado, pordizer ter orgulho em ser funcionário público. Com ênfase, sorrindo,repetiu-o várias vezes, enquanto tentava estabelecer contacto visualconnosco. Seguiu-se a descodificação, com direito a power point, doSistema Integrado de Avaliação do Desempenho na Administração Pública.De funcionários públicos passámos a trabalhadores contratados emfunções públicas. Trabalhadores. Descobriu-se a pólvora de que devemostrabalhar por objectivos, ou seja, metas mensuráveis de cujo resultadodepende a maior parte da avaliação. A restante parte são oscomportamentos. E estabeleceu-se que ser trabalhador contratado emfunções públicas já não é uma situação vitalícia. O formador repetiu,até à nossa exaustão, a mensagem de que acabou a impunidade dotrabalhador.Até aqui tudo bem, quanto aos valores da organização, datransparência, do brio no que se faz, da responsabilidade a par daautonomia, da importância da avaliação para a melhoria do desempenho eda proporcional recompensa do trabalhador. O problema está na própriadefinição dos objectivos, no cumprimento dos prazos legais das váriasetapas do processo, nas quotas – as quotas! -, na falta de preparaçãode muitos dirigentes - e na sua impunidade -, no facto de não haverhetero-avaliação da base para o topo da pirâmide e na demagogia de porum lado se apregoar que o mais importante são as pessoas dostrabalhadores e por outro se acentuar a obrigatoriedade de gerirsegundo o princípio absoluto de menos empregados para aumento daprodutividade. Eu não acredito numa gestão desumanizada, que não vê otrabalhador enquanto pessoa – esta frase é tão básica que nem deviaser preciso escrevê-la.No final, aplicou novamente a fórmula do seu orgulho em serfuncionário público, gabando-se de a mulher o ver pouco, devido a eleser tão esforçado no trabalho público... Este trintão, que até deveráter um aspecto saudável em fato de banho na praia, este homem, na suailuminação, conseguirá ver mais a mulher do que ela o vê a ele? Maisum homem do sistema, simpático até e com capacidade de comunicação.Dou-lhe nota positiva, que agora se chama… tenho de ir ver à net.A palavra reforma enuncia-se no horizonte do meu imaginário, comonunca supus poder acontecer. Quero trabalhar, mas não com estúpidosnem a servir de acessório ou até brinquedo ao chefe. Portugal tem deavançar e crescer, mas não assim. E estes gestores entusiastas? Têm decomeçar por tomar banho todos os dias, o que não era ali o caso.Apesar de tudo e possivelmente em tom paternalista digo que, comopessoa, não desgostei dele, embora tivesse o cabelo oleoso e esse sejapara mim mais um sinal de falta de credibilidade. Tivesse ele o cabelolavado… não, também não. E ainda em negação, é nestes momentos que melembro dos jovens alunos que tive durante oito anos, a quem nuncaousaria tratar desta forma e pergunto-me: como se chega a isto?Despedimo-nos, após aceso debate em que muitos participámos, tendo-secumprido o objectivo da comunicação, informar as pessoas daquelenúcleo laboral, mas ficando todos a pensar nas atitudes ecomportamentos, no micro do nosso caso e no macro da sociedade.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

a insustentável leveza dos iogurtes


(partindo do exercício 'escrever sobre um objecto em discurso directo', a passar pela coluna de opinião e terminando na crónica - escrita criativa, indeed)


Não estou fora do prazo, mas parece que aqui estou há anos, à espera que alguém me agarre. Trago comigo a impressão de que esta prateleira vai cair. Somos tantos aqui em cima, a olhar as pessoas que empurram cestos com rodas e que param, olham e logo desviam o olhar para paisagens mais coloridas, logo avançam para zonas menos frias.

Somos tantos iguais. Não falamos entre nós; há uma espécie de disputazinha que nos impede de confraternizar. Conheci alguns que foram levados, mas logo alguém vem para preencher os buracos e trazer mais, mais novos do que eu, mais frescos, em lugar de destaque, em promoção, em o-raio-que-os-parta-a-todos.

Quase todos os dias me empurram para o fundo da prateleira. Daqui não vejo grande coisa, mas imagino todas as manhãs que é o meu último dia neste sítio. E está frio e estou apertado mas continuo com frio. Quero saber se é isto, se isto é tudo, se os meus dias vão ser sempre assim. Não serei doce o suficiente? Não estou fora do prazo, mas hei-de ficar azedo da espera.




# – coluna de opinião

A Revolta Silenciosa dos Iogurtes

O que começou como um pequeno desastre num conjunto limitado de hipermercados da periferia de Lisboa, toma agora as proporções de um movimento silencioso à escala nacional. As medidas tomadas até agora pelos estabelecimentos comerciais de média e grande dimensão poucos resultados tiveram; e as pretensões do executivo de José Sócrates poucos resultados prometem.

Se no final do mês passado assistimos surpreendidos ao azar de inúmeros compradores de iogurtes que se queixavam de falta de sabor e, em casos extremos, da acidez e do azedume dos iogurtes e de algumas marcas de leite, hoje já o caso se estende a todos os lacticínios comprados em super e em hipermercados. Testes laboratoriais afastaram a responsabilidade dos produtores comprovando a qualidade dos produtos à saída das fábricas e mesmo após o transporte.

Para este inesperado flagelo, na altura ainda mascarado de azar pontual e tratado pelo governo como fait-divers, as primeiras respostas efectivas foram dos próprios pontos de venda, que substituíram máquinas, ajustaram condições de conservação e observaram novos modelos de reposição dos produtos. Mas continuaram as queixas dos consumidores, que se voltaram para a compra de leite e derivados em mercearias e outros pontos de venda de pequena dimensão.

Quando amanhã se votar na Assembleia pela retirada total dos lacticínios dos estabelecimentos comerciais de média e grande dimensão, está a negar-se a origem do problema e também a proibir as vendas nas lojas de grandes cadeias de distribuição que não foram afectadas pelo problema, como o Continente da Covilhã e algumas lojas Pingo Doce dos distritos da Guarda e de Castelo Branco.

Os anunciados votos a favor do governo e dos principais partidos da oposição recusam a complexidade da questão. Antes de proibir, dever-se-ia discutir por que razão estão os lacticínios a apodrecer nas prateleiras muito antes de atingirem o prazo de validade. E por que razão as lojas de pequena dimensão e alguns estabelecimentos do Interior Centro se mantêm à margem do problema?

Possivelmente, a resposta não está na mudança de condições de conservação, nos novos modelos de reposição ou no decreto de medidas proibitivas. Será que alguém já se lembrou de perguntar a um iogurte a razão do seu azedume?





# – crónica

Tempo de Vacas Magras

Ando a comprar iogurtes como se não houvesse amanhã. De leite não gosto, queijo nem posso ver e a manteiga já me aborrecia pela falta de sabor antes de tudo isto. Trago-os para casa e guardo-os no frigorífico durante uns dias, os dias que forem suficientes para recuperarem a plenitude do seu sabor.

De vez em quando vou espreitá-los e até me habituei a falar um pouco com eles. Abro a porta e fico ali a ouvi-los. Em princípio são lamentos, quase choradinhos sobre a solidão. Depois, aprendo sobre a incerteza da espera, sobre a dor de não se ter futuro. E, finalmente, admitem ter-se deixado tomar por um certo travo amargo do qual sozinhos não se conseguem libertar.

É um exercício simples fazer com que recuperem o gosto pela vida: trata-se de tratar a angústia com um pouco de atenção. É assim que os salvo. E faço questão de comprar parte deles no Continente do Colombo – não concebo iogurtes mais desgraçados. Depois de dois ou três dias em minha casa, estão tão felizes como nunca foram.

Quando comecei esta minha secreta empreitada, não imaginei que precisaria de salvar os da mercearia aqui da rua, que para além de serem mais caros, pensei, estão bem cuidados e passam alegremente o seu tempo a ouvir o merceeiro a esquadrinhar com as vizinhas.

Mas como as pessoas vinham em romaria comprar-lhe o leite e os iogurtes, o homem tornou-se ganancioso e encomendou tanto que até teve de alugar duas garagens nas traseiras do prédio para lhe servirem de armazém. O tiro saiu-lhe ao lado, porque, fechada em garagens escuras com o fétido odor dos escapes mais do que entranhado, a vaca fez-se magra e começou a azedar.

As pessoas deixaram de vir, mas o fenómeno vai-se repetindo pelo país fora. O merceeiro aqui da rua tem agora duas garagens cheias de produto que não vende porque azedou. Antes que ele se decida a mandar tudo fora, ando a comprar iogurtes como se não houvesse amanhã… com o dinheiro com que ele me paga o aluguer da garagem.


Sílvia Otto Sequeira

José Sócrates é mesmo engenheiro


coluna de opinião de Susana Crispim


Descobri há pouco tempo duas coisas que me levaram a ver a nossa governação de um ângulo bem diferente do que tinha visto até à data. A primeira é o método eficaz e implacável que o Governo usa para baixar a taxa de desemprego. A segunda é que afinal José Sócrates é mesmo engenheiro. Estas descobertas são elas próprias algo extraordinário, verdadeiros furos jornalísticos, mas o mais incrível é que existe entre elas uma relação causa-efeito inquestionável.
A primeira revelação deu-se quando, ao dirigir-me ao Centro de Emprego onde estou – pensava eu – inscrita, me disseram que a minha inscrição tinha sido anulada. «Porquê, se ainda não estou a trabalhar?», perguntei. «Porque não devolveu o RSF a manifestar o seu interesse em continuar registada no nosso Centro», respondeu a funcionária com o ar feliz de quem domina estas questões. Estava dado o mote para uma conversa kafquiana que só teria fim quando eu decidisse renovar a inscrição ou levantar-me e ir embora. Como não quero ficar de fora das estatísticas, optei por inscrever-me de novo e agora sempre que noticiarem o número de desempregados em Portugal sei que faço parte dele. É uma versão compacta dos quinze minutos de fama televisiva, mas a mim basta-me. Porém, só depois percebi a real dimensão da coisa. Quem não recebe o RSF não sabe que está na altura de renovar a inscrição, logo não o faz, logo sai da lista de pessoas à procura de emprego. Há também a hipótese de o recebermos, devolvermos e ele não chegar ao destino, e vai dar tudo ao mesmo. Os funcionários do Centro de Emprego têm menos um freguês e o primeiro-ministro esfrega as mãos de contente. Mais fácil só de encomenda.
À palavra “encomenda” associei “correios” e pus-me a pensar porque é que não tinha recebido o tal RSF. Por defeito de formação, assumo, muni-me de imediato da minha lista de contactos em busca de quem pudesse esclarecer-me esta dúvida. Com um simples telefonema fiquei a saber, de fonte segura, o motivo pelo qual muita correspondência não chega ao seu destino. Não, a razão não é ter o código postal errado. A culpa é dos próprios funcionários dos CTT.
Na verdade e como a minha fonte não se inibiu de frisar, basta que um envelope caia para trás de um móvel para que deixe de existir. O mesmo pode acontecer a um postal, e está claro que se for daqueles que ainda por cima não têm selo – como os RSF – o processo simplifica-se.
Assim chegamos à minha segunda e talvez mais marcante descoberta, a de que José Sócrates afinal é mesmo engenheiro. Por mim arrumei o assunto e não aceito mais explicações. Vendo bem, só muitos anos de estudo e a posterior obtenção de uma licenciatura em engenharia levariam alguém a ter a leveza de usar um RSF para resolver um assunto tão importante como o emprego ou desemprego dos portugueses. Está bem que há aqui uma boa ajuda dos empregados dos CTT e até uma quota-parte de sorte, mas não podemos descurar o elevado grau de complexidade da ideia em si.
A partir de hoje a expressão “deve ser obra de engenheiro” tem, para mim, um novo significado e vou abolir o seu uso de forma leviana. E o melhor momento da minha vida após ter feito estas descobertas vai ser quando alguém me arranjar de facto um emprego.