sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A entrega - uma história sem porquê

O Sol está alto. Daqueles responsáveis pela terra branca. Daqueles cortados pelos abutres às voltas, à espera de mais um caído para alimento. O vento calou-se com a manhã e de barulhos só os metais das botas manchadas de sangue do único capaz de andar por ali.
Passo a passo, um esqueleto vestido de pó, de seu nome Higgins, arrasta os pés até à entrada de Peaceville.
A pequena vila é mais uma pedra grande no meio do deserto, com as suas míseras dez casas e a velha capela ao fundo, antes da continuação da estrada.
Ao passar a placa tosca com o nome da cidade, Higgins vira à esquerda e pisa a madeira do alpendre sem acordar o cão. As mãos, tal como o espírito, estão em baixo. Na cara, o sorriso, tapado pelo cabelo negro escorrido, mantém-se.
O xerife abre-lhe a porta devagar e vê nos braços as marcas da noite anterior. Vê também o velho Turner e a família. O sangue. A casa escancarada e as gavetas intactas. O cata-vento como único habitante.
Nem pede explicações, mas promete a si mesmo e ao monstro à sua frente:
- Nunca mais ouvirás a voz de alguém na tua vida.
Os abutres protestam e o velho protector cospe no chão.
Menos um pedaço de escumalha a perturbar a fina calma de Peaceville.
João Silva

sem que - Helena Pereira



Existem palavras obscenas. Minto. Todas as palavras são neutras - a obscenidade escreve-se a carne e osso. As palavras são sempre só palavras.Depois existem as chamadas palavras proibidas. Mas minto mais uma vez. Nenhuma palavra é proibida. Os seus significados, esses sim, podem ou não tornar-se indesejáveis. Porque as palavras são sempre só palavras. Há ainda aquelas - as palavras, das quais sentimos mais falta. E não me refiro apenas às com bons significados. Refiro-me essencialmente àquelas cuja função é apoiar-nos, dar força ao nosso discurso. E aqui entram as asneiras, porque nenhuma outra palavra nos serve simultaneamente de consolo, alivio e libertação. As asneiras são palavras condenadas à partida pela sujidade do seu campo semântico. Já a sua verdadeira mais valia está na criatividade permitida às suas construções sintáxicas. Pois bem, são quase duas da tarde e tenho fome. Apetece-me comer as seguintes palavras: bifes de porco secreto com arroz e batatas fritas. Tenho realmente muita fome porque hoje também não houve bolinhos. Como tal apetece-me dizer uma asneira. Merda por exemplo. Podia dizer porra porque sou uma menina, mas porra não chega a ser uma asneira. Mas dizer: tenho fome merda! é totalmente diferente de poder usar atrás de merda e antes de um ponto final, a única palavra that i can't write...

showcase do Pedro Amaral (uma maravilha)

Que

Qual será o minuto mais feliz da semana? Eu aponto-o facilmente, domingo, 19:58.
A esta hora façam um rápido “zapping” nas vossas TVs e constatarão uma sequência de finais felizes dos filmes domingueiros.
Antes do telejornal é então possível observar o macaco jogador de hóquei e o cão futebolista (Airbud para os mais incautos) junto de uma familia feliz de crianças loiras nos suburbios americanos.
Ao Domingo, 19:58, nos canais generalistas e em casa, todos estão felizes. Menos eu, o meu cão não joga à bola e amanhã é segunda.
Em contraste, às 8 da noite, como será o jantar dos petizes que torceram pelo Air Bud? Rapidamente passaram de um labrador divertido para a cara da Manuela Ferreira Leite. E ninguém gosta desse cão.


Aforismos


Pulseira electrónica. Bijuteria que adorna o crime.
Lobo Frontal. O lobo mais pragmático da alcateia.
Pornografia. Melhor amiga dos solteiros, amante secreta dos casados.
Silêncio. O que está antes de se cantar o fado.
Lenços de Papel. Melhores amigos da pornografia.

sem que

Tinha a capacidade de perceber toda a complexidade do mundo. Compreendia o conceito de “saudade”, “espaço-tempo” e “mais ou menos”. Conseguia desenvolver fórmulas para explicar coisas complicadas. A última descrevia o comportamento de uma bola de sabão. Tinha uma inteligência sentimental fora do normal e um desempenho sexual arrebatador. Era simpático para as pessoas e sabia cozinhar. Se soubesse atar os sapatos seria o homem perfeito. Conseguia compreender o conceito de nó. Era capaz de reconstituir mentalmente os passos necessários para o fazer, podia até escrever uma dissertação sobre a física dos atacadores, com equações cheias de letras gregas e vectores e força e resistência e tracção e peso e variáveis inesperadas. Podia escrever uma tese sobre a história do calçado e sobre a improbabilidade de muitos sapatos continuarem, ainda hoje, a depender de cordéis para se manterem presos aos pés. Mesmo assim não conseguia atar um atacador. Isso irritava-o. Irritava-o ao ponto de julgar ter a incapacidade como um preço a pagar por saber fazer tudo o resto. Podia até nem fazer muito sentido, mas estava disposto a perder todas as capacidades em troca de uma. O senhor alto e magro entrara há 2 minutos no quarto com uma caneta e um papel e propôs-lhe o acordo pela segunda vez. Decidiu aceitar. Assinou os papéis e voltou a adormecer.
Rui Braz

as 5 palavrinhas obrigatórias

Ele era alto, de aspecto gutural e nariz fino.
Calçava o 43 (pé pequeno para a envergadura), gostava de passear o seu Grand Danois Piruças pela fresca e tinha predilecção por caixas de fósforos.
35 anos, roía as unhas até ao sabugo, tirava o lixo debaixo das unhas com uma navalha e usava a sua camisa favorita de quadrados vermelhos de flanela.
Apaixonado por Nijinski e pelo Bailado Russo era mestre na arte de cortar a chouriça em pedaços fininhos para usar no caldo verde ou no arroz de pato.
Trabalhava na Tasca do Zé ao balcão cravado de nódoas de tinto alentejano, onde ainda escorria a gordura dos coiratos.
Um dia, depois de mais uma bebedeira com Moscatel de Setúbal andou ao murro a um preto. Ele chamava-lhe Mantorras, não pelo pé esquerdo que mesmo com rebites marca golos, mas porque é o que chama a todos os pretos para facilitar.
Fez-lhe uma placagem como no rugby e mandou-os ao chão com os seus ténis brancos da Nike.
Calçou as luvas, sacou da navalha com que limpava as unhas e esfaqueou-o ali na Tasca, entre o balcão e a montra dos sumos e dos queijos cheia de moscas.
Sacou do cigarro e foi fumar para a janela. Chovia mais uma vez e ele tinha deixado a roupa na corda.
Rossana Amador

A importância de se ser uma palavra insignificante


A língua portuguesa fascina-me. Estou sempre a dizer isto. Tem tantas palavras essenciais, esta língua. Palavras sem as quais não podemos viver. Como por exemplo, pronomes relativos ou conjunções integrantes começadas por “quê-de-nove”.
Penso como seria a nossa vida se um dia nos proibissem de utilizar determinada palavra. Se o Governo ou a Academia decidissem instituir o seguinte mandamento: “pronomes relativos e conjunções integrantes começadas por “quê-de-nove”, a partir de agora, são palavrões, não se podem usar”, e nós tínhamos de nos habituar a viver sem palavras tão essenciais.
Às vezes, quando gostamos muito de um livro ou de um filme, temos a certeza de não ser possível viver sem voltar a reler o livro ou a rever o tal filme. São essenciais. Como será, então, viver sem certas palavras, palavras normais, aborrecidas, pouco originais talvez, mas mesmo assim tão necessárias?
Não sei. Não consigo responder a isto. Mas será, com certeza, complicado.
As palavras normais, aborrecidas, os tais pronomes e conjunções começados por “quê-de-nove” são como tantas outras coisas na vida – não notamos quando lá estão, mas quando se vão embora sentimos-lhe a falta.


Rita Faria

A boda

exercício das 5 palavras obrigatórias, Susana Crispim

Primeiro hesitou, mas por fim lá se decidiu a tirar a luva. Ainda não estava habituada a olhar para a mão, para o dedo, para o anel que agora enfeitava o anelar. Afinal, só tinham passado vinte e quatro horas desde que se tinha casado.
A boda tinha corrido bem. Principalmente se pensarmos que era pleno Inverno, a temperatura não ajudava a usar roupa de cerimónia e o lugar escolhido para o copo-de-água era quase no meio do nada. Excelente ideia a de aproveitar a enorme janela para pelo menos poder contemplar as maravilhas da serra.
Os empregados de catering tinham-se esmerado. Lembrava-se com especial carinho de um que se chamava Mantorras. Era enorme, parecia um jogador de rugby, mas mesmo assim servia bebidas e canapés com a elegância de um lorde inglês. Se é que um lorde inglês poderia ter tal elegância, é claro.
Quase lhe custava a acreditar que tinha dado este passo. Tinha pensado, repensado e acabara por seguir em frente. Alguma dúvida que ainda lhe restasse acabou quando, ao olhar para a cama, o viu deitado. Pedro dormia profundamente, e a cabeça estava coberta pelo travesseiro enorme, ou chouriça, ou lá como lhe chamavam.
Por agora, não havia volta a dar-lhe.