quinta-feira, 30 de abril de 2009

Adão Vicente Biscaia

Adão é um advogado com 43 anos.
É solteiro e vive sozinho numa vila portuguesa, onde o mais interessante que existe é o Museu do Jurássico.
É um cavalheiro à antiga.
Despede-se com ósculos.
Da sua vida amorosa, não se conhece nada.
Preserva, há mais de 20 anos, uma barba acentuada que lhe permite criar uma barreira com o mundo.
Não tem a pele clara nem escura, é simplesmente transparente.
Descendente de uma família conservadora e muito religiosa, aos 18 anos pediu à mãe para tirar todos os santos e crucifixos do seu quarto.
É muito ligado à família e tem um grande sentido de protecção.
Veste roupa antiquada, embora se perceba o esforço por aparentar alguma modernidade.
Bebe gin com água das pedras.
Como desbloqueador de conversa, trauteia um “Shubidubidu” ou um “Jingle Bell”.
Entre mexer com as mãos no cabelo, como se espantasse um enxame em fúria, dar pequenos toques arritmados nas pernas ou piscar descontroladamente os olhos, tem tiques. Muitos.
As portas do seu carro, fruto dos tiques constantes, estão amolgadas.
Já escreveu diversas peças de teatro, as quais encenou, mas nenhum dos actores amadores o levava muito a sério.
Nas poucas experiências como actor, o seu verdadeiro sonho de vida, transforma-se. É brilhante e consegue provocar o silêncio da plateia.
Faz rir com o seu humor muito próprio, mas, na maior parte das vezes vezes, ninguém entende as suas piadas.
Tem uma cultura desmedida.
Gosta de provocar, utilizando, inteligentemente, a sua postura aparentemente inocente.

Rita Pereira

Perfil do fantasma

Henrique Vaz Oliveira nasceu a 6 de Abril de 1881 no Monte, pequena vila da ilha da Madeira e morreu a 24 de Fevereiro de 1939 exactamente na mesma cama onde nasceu.
Homem nobre, de famílias abastadas, pouco fez na sua vida para além de gerir patrimónios e a sua própria vida social. Casou-se com Matilde, também ela de sangue azul e teve 7 filhos, todos homens. Era gordo, tinha um bigode farfalhudo e fumava cachimbo. Tinha os olhos azuis, muito pequeninos e afastados um do outro. Andava de bengala por ter nascido com uma perna menor que a outra. Esta pequena deficiência o impedira de ter uma infância normal pois não podia correr e brincar como os outros meninos. Esse problema interferiu com a sua personalidade, tornando-o inseguro. Para disfarçar essa insegurança gritava com tudo e com todos quando algo não estava do seu agrado e falava constantemente de si como um ser superior, a ver se convencia os outros e a si mesmo. Era um homem culto, leu todos os livros da gigante biblioteca que possuía no rés-do-chão do seu casarão. Ligava muito às aparências visto que era disso que vivia, não possuía outro talento que não fosse o de parecer mais do que na verdade era. E a verdade era que estava falido, não sobrava muito da fortuna que herdara. A maior parte do seu esforço centrava-se em fazer com que ninguém descobrisse isto, principalmente a sua família, que acreditava piamente na riqueza do velho. Mas quem foi em vida não nos interessa muito, uma vez que vamos conhecê-lo apenas na morte, como um fantasma que assombra a casa construída pelo seu bisavô, o duque do Monte.

Henrique é um fantasma inconformado com a sua morte ridícula. Foi uma espécie de suicídio acidental. Andava paranóico, acreditava que um dos seus filhos queria matá-lo para ficar com a suposta fortuna. Dormia com um antídoto que revertia o efeito de qualquer veneno que lhe pudessem dar. Na noite fatal, comeu qualquer coisa estragada e quando se deitou sentiu-se mal. Achou que o tinham envenenado e tomou o antídoto que acabou por o matar. Quando “acordou” morto não queria acreditar na estupidez. Jurou não sair jamais de casa, para não correr o risco de encontrar um fantasma amigo seu e vê-lo a rir-se da sua cara. Assistiu a tudo. Ao seu velório, à incredulidade na cara da família quando descobriu que estava falida, à venda da casa a completos estranhos. A sua missão de morte ficou nesse momento definida: nunca deixaria nenhuma família sem origens ocupar a sua nobre casa. Ao longo dos anos, outros fantasmas juntaram-se a ele: dois dos seus filhos, uma neta, um casal de criados e o seu bisavô que na verdade nunca tinha saído dali. Henrique é um fantasma confiante, perdeu a sua insegurança juntamente com a sua bengala, agora não há nada que o impeça de mover-se livremente, nem peso tem, apesar de manter a aparência exacta que tinha no momento da sua morte. Como agora tem uma missão e objectivos claros na sua cabeça transparente (coisa que nunca teve em vida), tornou-se num homem, perdão, num fantasma competente, inteligente, forte, seguro de si mesmo, com um grande espírito de liderança. Resumindo, é um fantasma assustador, daqueles que não convém ter em casa, principalmente quando a casa é dele e ele não nos quer por perto. O problema é que ele vai ter de mais uma vez mudar um pouco a sua personalidade, uma vez que está numa situação delicada: a sua casa está em ruínas graças ao seu sucesso. Uma casa sem gente começa a cair aos bocados e nenhum fantasma (nem mesmo um tão bom no que faz como ele) tem poder para reconstruí-la. Para sobreviver (ou sobremorrer, neste caso) terá de agradar os seus novos inquilinos e isso, é uma coisa que ele ainda não sabe fazer e vai ter de aprender.
Andreia Ribeiro

a meio da noite



Um quarto de hospital.
Cama e mesa de cabeceira.
Um cadeirão.
Paredes cinzentas.
No tecto, um candeeiro de
globo.
Só um doente.
Uma enfermeira, sentada
na borda da cama, fala com
o doente. Às vezes pega-lhe
na mão, põem-a no seu joelho,
e faz-lhe uma festa.

Enfermeira – Olhe, vou-lhe fechar a luz, é quase noite. A meio da noite venho vê-lo.
Doente – Sabe, em toda a vida, a senhora enfermeira foi a única mulher que eu vi a meio da noite. A minha mãe, a memória não chega lá.
Ef – É impossível. Eu sei que o senhor é solteiro, mas é uma pessoa tão meiga, tão interesante.
Dt – Você disse que era impossível? Mas foi possível. Tão possível que me aconteceu a mim. Um amigo meu – chamava-se Vicente – teve um desgosto de amor. Como uma gripe. A seguir andou a tentar perceber porque razão as pessoas se aproximam e separam. Acabou por ir para Amesterdão, porque, dizia ele “lá posso ser qualquer um que decida ser. Nada me define para sempre”. E tinha razão.
Eu fiquei por cá, senhora enfermeira. Andei toda a vida sem pensar sequer em definir-me. Como uma gaivota à superfície da água que não pensa quando irá para terra ou quando voará para o ar.
Nunca quis decidir nada. E fui assim até hoje. O Vicente foi à procura de uma coisa que eu nunca pensei sequer procurar.
Tive uma vida simples. Não tive conflitos, nem valores. Só sentimentos.
Vivi sozinho. Às vezes visitava a família e nada na minha vida mudou a partir dos vinte anos. Para trás, era mais complicado falar. Mas desculpe enfermeira, estou para aqui a confessar-me. Com a sua mão na minha. Você é o padre, eu sou o moribundo.
A enfermeira sai para o corredor e
fala com uma colega.
Ef- Esteve-me a contar a vida. Está lúcido, mas diz coisas que não percebo. Aqueles olhos, Joana, ao mesmo tempo agudos e toldados – ele diz que sempre teve um olhar incompleto - (isto por exemplo, não percebo), o sorriso que me faz quando abre os olhos e fala comigo, provocam-me uma sensação que me choca mas me agrada. Nunca me aconteceu isto. Gosto tanto de lhe pegar na mão.
A enfermeira volta a entrar e
recomeça a falar com o doente
Ef – Vou fazer-lhe a última festinha de hoje e fecho a luz.
Dt – É, sempre tive as mãos assim, abertas. Dá ideia que não querem agarrar nada.
Ef - Vá lá, não seja filósofo. Uma vez vi um artigo seu no jornal.
Dt – Oh! Escrever! Foi para isso que andei na escola. Escrever é usar bem uma caneta.
Ef – Antes de fechar a luz, desculpe, mas queria dizer-lhe uma coisa. O senhor provoca-me uma sensação estranha, mas boa. Não percebo mas há qualquer coisa – não sei se é a sua franqueza – que faz com que eu deseje pegar-lhe ao colo, como a uma criança, não me leve a mal, é ternura por si. E embalá-lo até o adormecer.
Mas que disparates, vou é fechar-lhe a luz.
Dt – Adormecer, já sinto esse sono. E também eu sinto uma sensação de embalo. Você parece-me uma mãe que atrasadamente me embala.
Desculpe, mas estou cansado.
Ef – Durma, durma senhor Fernando. Qualquer pessoa, quando está doente, deve tentar é descansar e não pensar em nada.
A enfermeira sai.

E Fernando Pessoa adormeceu definitivamente a meio da noite.

António Oliveira

ARLINDA, de Helena Pereira

Segue o perfil da Arlinda, e já agora, se ajudar, o link da música extremamente panisga que serviu de pano de fundo para a compor e que lhe deu o tom:
Mas sem comentários, se faz favor, que não tenho a culpa que o meu cérebro resolva entrar em shuffle automático de vez em quando, e vá buscar coisas que nem me lembro onde as ouvi. Mas de qualquer modo, essa é a música da arlinda.
Uma balzaquiana recente, completou 30 anos há apenas um mês. É uma mulher bonita, atraente. Loira, cabelos ondulados, olhos verdes de gata, enfeitiça à passagem. O nome fora do comum é herança de uma tia da mãe, que morreu em pequena. Ela detesta-o, mas vai de encontro à sua personalidade carismática.
É a mais nova de 4 irmãos, todos rapazes. E apesar de filha bastarda, é amada por todos eles. O pai - que ela mal conheceu pois morreu quando ela tinha apenas 6 anos, abandonou a mulher e os 4 filhos rapazes para ir viver um grande amor ao lado da sua mãe.
Canta divinalmente, desde pequena, e sabe disso. Em compensação, Cerelac é o prato que melhor sabe cozinhar.
Ganha a vida a cruzar os céus - é piloto de aviões.
Forte, dinâmica, extremamente racional, não tem medo de nada.
Quando está com a neura pega nas sapatilhas e vai correr com o Boris, o cão que a adoptou numa dessas muitas corridas. Está a começar a ter aulas de kickboxing.
Fala pouco, mas ri como ninguém. Tem os tais, poucos mas bons, amigos.
A pessoa que mais ama na vida é a avó Maria, a mãe do pai, que a juntou aos irmãos e lhe possibilitou fazer parte de uma família.
Aqui e ali, empresta o corpo a casos sem importância. O coração, está amarrado onde não faz sentido nenhum estar: ao homem que a violou aos 19 anos de idade, num banco de um fiat uno vermelho, lhe ensinou o significado da palavra aborto, e que saiu da sua vida. Mas que teima em reaparecer sempre que ela acha que já o esqueceu.

storyline de Andrea Ribeiro

A casa mal assombrada

Um grupo de fantasmas assombra uma casa que acaba por ficar em ruínas por estar muito tempo desabitada, eles vêm-se então obrigados a agradar os novos inquilinos, o que pode tornar-se ainda mais assustador.

Eu, Jorge de Couto Galvão

Gosto de mim. Ponto. E é tanto assim que não confio a ninguém a tarefa de me descrever. Odeio mesmo quando, nos inúmeros eventos sociais para que sou solicitado, alguém decide apresentar-me: «Este é o Jorge, tem 42 anos, é solteiro, um excelente partido e advogado nas poucas horas livres». Que redutor! O nome está certo, a idade é só um número e o estado civil e profissão pouco importam.
No espelho vejo um homem interessante de quase 1,80 m, corpo bem trabalhado no ginásio e olhos cuja cor é para muitos sinónimo de traição. É certo que as rugas já vão aparecendo, mas não creio ter que recorrer a implantes capilares tão cedo.
Vivo com o meu pai e a minha tia numa casa solarenga ao Chiado. «Com essa idade, eis o defeito número um», dirão. Esqueçam: tenho uma bela área só para mim, posso entrar e sair sem que se apercebam e as beldades que têm a sorte de me acompanhar até casa nem sonham que ali vive mais alguém. Bem, na verdade as que lá chegam não têm muito tempo para sonhar.
Sou mesmo advogado num escritório que dá renome à família há gerações. Exerço pouco, nada, mas sempre vou dando alguma felicidade ao meu pai. Já basta ter ficado sem o amor da sua vida quando eu nasci. Nunca conheci a minha mãe. Só posso acreditar que era tão bonita quanto o meu pai diz – seguramente saí a ela -, pois não há em toda a casa um único documento que ateste o que ouço desde sempre. Se pergunto à minha tia porque não há nem um retrato, ela responde-me, sempre de fugida, que o irmão não aguentaria o desgosto de ter que olhar para ele. Houve alturas em que a curiosidade me fazia vasculhar armários e gavetas à procura de uma fotografia esquecida. O tempo e alguns anos de psicoterapia ajudaram-me a ultrapassar esse vazio.
Acho que já disse que vou a muitas festas. Só não disse que muitas delas são chatas, cheias de pseudo-jet-set e de tias oferecidas que adoram roçar-se nos meus fatos Ermenegildo Zegna. Às vezes mais vale ir ao encontro do sexo genuíno, nos sítios onde não há lugar para subterfúgios. Afinal, do Chiado ao Cais do Sodré só dista a Rua do Alecrim.
Tenho amigas (algumas), amigos (poucos) e conhecidos (demais). Para a cama costumo levar mulheres, mas umas flutes a mais de D. Pérignon já me fizeram acordar com homens ao lado. Nos dias de hoje não me parece que tal possa ser encarado como um possível segundo defeito.
A minha vida não se resume em queixas, mágoas ou arrependimentos. Vou fazendo o que quero, quando quero e com quem quero. Há quem diga que sou egocêntrico, egoísta, daqueles que pensa que o dinheiro compra tudo. Talvez até seja um pouco assim, mas nos últimos dias tenho dado por mim a pensar mais noutro ser que na minha pessoa. E que ser! Agradeço a hora em que deixei que me arrastassem para a despedida de solteiro do Gonçalo. Se não fosse isso, jamais teria conhecido a Rita. É mais velha, eu sei. Talvez não seja a nora ideal para apresentar ao meu pai, também sei. Mas tenho a certeza que os momentos mais importantes da minha existência ainda estão para acontecer e que vão ser com ela ao meu lado. O que espero da vida? A partir de hoje, tudo de bom.
Susana Crispim

storyline de Marta Spínola

Um homem tem como ocupação planear assaltos a casas para outros. Observa, projecta e entrega. Aceita encomendas e aconselha larápios. O seu sonho é encontrar a casa impossivel de assaltar, projectando ocasionalmente assaltos à própria habitação.